sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O Tempo

Um poema para o término de mais um ano.



O Tempo


O homem engole o Tempo
E o Tempo não morre na barriga do homem.
Ele aumenta e aumenta.
Incha a barriga
E devora o homem de dentro pra fora.

O Tempo é assim
Como um bicho pragento
Que come aos pouquinhos
E a gente ri, canta e vive
E só depois se dá conta que o Tempo nos devorou
Devorou a cor dos cabelos,
O brilho dos olhos,
A pele, os dentes, os ossos...

Por fim é o Tempo que engole o homem
E o homem some na enorme barriga do Tempo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Tempo, Café e Assassinos

[O Terraço do Café à Noite (1888) - Van Gogh]



Tempo, Café e Assassinos



Enquanto mofo no silêncio
O mofo alarga sobre meus ossos
Um gole de café
Enquanto pessoas morrem
Um tiro no escuro
O tempo avança veloz
Na noite veloz
Sem voz
Enquanto ouço mudo o vento Uivar!

Enquanto busco uma mão no vazio
O mundo desaba
Toda forma de poder não leva a nada
E há um assassino cruzando a estrada
Enquanto escrevo poemas sobre o nada
Um gole de café
Enquanto envelheço tão rápido
Veloz é a noite que me devora!

Enquanto minto
Há um assassino cruzando a estrada
Bonito é o espetáculo na tevê
Enquanto mofo no silêncio
Alguém bate à porta
Pedindo esmola
Não sei seu nome nem sua origem
Um gole de café
Enquanto um assassino cruza a estrada
E o tempo passa delirante
Sob meus olhos vencidos!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Distante

[A carta de amor (1670) - Vermeer]


Distante



Esta distância das mãos e das bocas
Provoca-nos

Manda-me para o limbo
Distancia dos desejos
E causa-me gastrite crônica

Esta distância das mãos e das bocas

Faz-me um bêbado
Sem rumo ou origem
Faz-me um fumante
Precário e doente

Esta distância
Quanto mal nos causa?

Resfriados, náuseas,
Aumento da pressão,
E loucuras momentâneas.

Oh!Realmente somos loucos
Tão loucos que continuamos com esta distância prejudicial.

sábado, 27 de novembro de 2010

For whom the bell tolls

O Metallica também se inspirou em Hemingway e John Donne para compor uma canção. Abaixo um show da banda em Oakland, Califórnia no festival Days on the Green. A música é “For whom the bell tolls”. (Letra e tradução clique aqui).

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Por Quem os Sinos Dobram

[Três de Maio de 1808 em Madrid - Goya]



Por Quem os Sinos Dobram


Agora os soldados são outros
Outra também é a guerra
Outro também é o tempo
Mas todos com a mesma essência
Afundar navios,
Derrubar homens,
Atirar o pão.

Há uma guerra em meu país
Tão injusta e grave
Como qualquer outra.

Agora o canhão aponta para outro lado
Outra também é a ordem do general
Outro também é o braço pendurado no arame farpado.

Há uma guerra nas ruas,
Nas escolas,
Há uma guerra dentro de nós.

Deus, estou sujo de pó e sangue
Não sei se matei ou se estão me matando.
Importa-me a morte do outro?




P.S. Poema escrito durante a guerra.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Poe é Pop

[Poe]


Como sabemos Poe foi um maldito. Durante sua vida o poeta enfrentou grandes tragédias. Já após a morte (cercada de mistérios) tornou-se uma lenda que influenciou gerações de escritores, poetas, músicos e ilustradores. Tornando-se uma figura popular. Agora seus últimos dias de vida serão romantizados. Em 2011 chega aos cinemas “The Raven”, um filme a cerca de sua misteriosa morte.

[Ilustração de Gustave Dore para o poema “The Raven”]

sábado, 13 de novembro de 2010

Um pensamento de Pascal

[Filósofo em Meditação (1632)- Rembrandt]


"Não sei quem me pôs no mundo nem o que é o mundo, nem mesmo o que sou. Estou numa ignorância terrível de todas as coisas. Não sei o que é o meu corpo, nem o que são os meus sentidos, nem o que é a minha alma, e até esta parte, parte do meu ser que pensa o que eu digo, refletindo sobre tudo sobre si própria, não se conhece melhor do que o resto.”

Blaise Pascal (1623-1662)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Dois meses de Mundo JAMÉ VU

Recebi o release comemorando os 2 meses de JAMÉ VU. E repasso para vocês, meus caríssimos:


O site cultural e coletivo JAMÉ VU, editado pelo escritor Homero Gomes: www.jamevu.tumblr.com, já ultrapassou as 15 (quinze) mil páginas de leitura nesses dois meses em que está no ar.

Um site que nasce de um livro, deveria ter data para acabar; entretanto, o Mundo JAMÉ VU nasceu para ser um coletivo sem restrição estética e ideológica - além de ser um espaço de divulgação das narrativas do saudoso Fulano de Tal.

Ou seja, o Mundo JAMÉ VU é um espaço aberto a ideias e produções artísticas diversas e de qualquer pessoa, seja artista/escritor ou não, sem favorecer, por isso, o sistema de trocas que está enraizado em nossa sociedade.

Entretanto, não quer dizer que não possua uma linha editorial, uma preocupação principal, que atire para todos os lados. Como observou o escritor Carlos Emílio C. Lima, a respeito do Mundo JAMÉ VU, o site é construído por “textos mais ou menos curtos, links de vídeos [além de fotos, charges, ilustrações etc.] em todas as direções não indicadas pela normalidade artistíca. Miscelânea e trechos de turbilhão”.

Essa não normalidade em turbilhão é o fundamento do Mundo JAMÉ VU, pois é assim o livro de narrativas de Fulano de Tal.

O editor convida a todos para que se tornem leitores assíduos e que façam parte desse Mundo JAMÉ VU, contribuindo com produções pessoais ou com textos, fotos, citações, links, vídeos, ilustrações, HQs que possam ser classificados como inusitados, indignantes, que nos colocam em estado de choque ou que arrancam nossa voz de ira.


Serviço:
Editor - Homero Gomes
Contato - homero.gomes | arroba | gmail.com
Endereço - www.jamevu.tumblr.com

Para quem ainda não leu o meu conto por lá: Clique aqui.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sonâmbulo


[Café Noturno (1888) - Van Gogh]

Sonâmbulo



Costumo caminhar pelas ruas vazias
e a perder-me
A observar as rodas impecáveis dos automóveis
E a sentir o cheiro das prostitutas pela manhã
A andar pelas casas
e pelos os telhados vazios
e pela tarde morna
Com pedestres atônitos e vazios
Pelos fios dos postes
Carregados de energias e vozes
e casas desamparadas e de alvenarias
Com alfinetes e relógios
e caixas e utensílios descartáveis
E encontro campos e terras
com homens e mulheres
E fábricas de metais novos de nova engenharia
Óleos e burocracias
e escritórios e delegacias
Costumo caminhar pelas ruas vazias
A observar os mortos que marcham sólidos
E abatidos pela monotonia
Costumo caminhar pelas ruas vazias
E perder-me infinitamente
Entre ruas e casas
Assaltos e mortes
Atentados insanos e crimes passionais
Creio estar pálido
E pálido vou pela rua
Cruzando céus e muros
Sonolento das incertezas do mundo
Talvez já esteja morto e não sabia


terça-feira, 12 de outubro de 2010

Mundo Jamé Vu


Recentemente encontrei um site muito interessante. Com o estranho e inusitado título JAMÉ VU. Mas não sem razão, pois a ideia do site é realmente provocar o leitor através do insólito. Leiam o lema dele que se encontra na página de abertura:

“Aqui é onde tudo o que se perde é resgatado. Nesse mundo em que não reconhecemos ninguém, onde nos perdemos e, isolados de nós mesmos, esquecemos identidades, resta apenas nos enfiarmos por caminhos perigosos, espancados e castrados. O que era seu, meu e de todos se esvai rapidamente”.

Este pensamento explica muito o espírito singular deste site, que é editado pelo escritor Homero Gomes. E o melhor e que todos podem participar (dentro da linha editorial, é claro).

Diante de tal proposta, como não seria diferente, não resisti e contribui com um texto. Para lê-lo clique aqui.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Poema - Se eu permitisse que o amor escorresse da minha alma?

[Quatro Girassóis Cortados (1887) - Van Gogh]


Se eu permitisse que o amor escorresse da minha alma?


E se eu permitisse que o amor escorresse da minha alma
O que restaria de mim
Desta matéria da qual sou composto
Carne e osso?

Poderia algum dia juntar-me aos homens
Compartilhar do mesmo alimento
Sentar-me a mesa da Santa Ceia
Sem, contudo ficar constrangido?

E quando beijar-lhe a face
Não seria o beijo de um traidor?


Mas o amor não está suspenso dos homens?
Não é senão coisa abstrata, mentira escarrada?


Tenho aprendido com os homens
A não fazer guerras e nem religião

Tenho aprendido a viver pouco

Tenho aprendido a ter piedade e compaixão
Para não construir bombas nucleares
E varrer a Terra de vez


É preciso se desesperar com os homens
E indagar ao final da madrugada
No amplo silêncio do infinito
Sobre se eu permitisse
Que o amor escorresse da minha alma?


Alex Zigar

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Poema - Inconstâncias

[Rousse, La Toilette (1896) - Toulouse-Lautrec]


Inconstâncias


Onde estão tuas mãos?
Nesta noite seca elas não desceram
Para acalmar-me da loucura do mundo


Abro a janela
Há tiros e inconstâncias nas ruas

Ficamos sós.
Em noites silenciosas teu corpo nu me marcou
Como o galopar de um animal selvagem

Escuta
Há tiros e inconstâncias nas ruas

Hoje não tenho tua pele na minha
Nem literatura nem poesia


Tenho carros e discussões absurdas nas ruas


Não, não nos entendemos
Ninguém se compreende no tumulto

Fiquei só.
Em noites silenciosas teus seios e tuas pernas
Adentraram sussurrando em meu corpo


Nota
O mundo não tem calma nem cama
Para silenciar-se ou gozar
É apenas tumulto
Que nos confunde e funde na incompreensão
Das mãos


Não sejamos como o mundo


Nesta noite ficamos sós. Distantes.
Ouvindo as inconstâncias das ruas
Sem silêncio nem gozo.


Alex Zigar

sábado, 28 de agosto de 2010

Dor na Noite

[Two Blue Horses (1911) – Franz Marc]



A dor ainda rouba-te o sono
Não
Não tens sono
Vives como sonâmbulo
Espectro da noite
Que ficas para assistir ao espetáculo na TV
E ficas mudo
Não
Não comunicas para o mundo o que sentes
Mas o que é que sentes

A TV anuncia o fim do mundo
O tiro A bala
A morte da mãe grávida
A justiça errada
De repente percebes que não é apenas espectador
Também fazes parte do espetáculo

Porém não sabes
Nada se resolve Para curar tua dor no meio da noite

Pensas demais e nada fazes

Enquanto outros trabalham
Operam máquinas estrangeiras
Para inventar remédios e curar a dor de outros
Tens apenas um papel e um rabiscar patético

Escreves na madrugada
Mas por que escreves
Para ser ridículo
Para criar mundos Para ser Deus
Que consolo
Que bem
Que proveito tens Das tuas infâmias escritas que ninguém lê

O operário na obra ignora a ópera

Não sabes
Os poetas foram expulsos da República

Eles não recitam mais nas praças
Não cantam nos palácios
Nem nos teatros

Escreves para ti então
Para os bêbados e para os loucos

Não percebes
Teus poemas são um balbuciar de um demente
A bater e a xingar a si mesmo

Escreves para esquecer a dor

Não
Não A poesia não te salvas
E a dor ainda rouba-te o sono

Alex Zigar

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Lorca e a Poesia



“Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da Poesia. Isso fica para críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a Poesia.

Aqui está; olha. Tenho fogo em minhas mãos. Eu o entendo e trabalho com ele perfeitamente, mas não posso falar dele sem literatura. Compreendo todas as poéticas; poderia falar delas se não mudasse de opinião a cada cinco minutos. Não sei. Pode ser que algum dia eu goste muito da má poesia, como gosto (gostamos) hoje, com loucura, da música má. Queimarei o Partenão durante a noite, para começar a erguê-lo pela manhã e não terminá-lo nunca.

Em minhas conferências tenho falado às vezes da Poesia, mas a única coisa de que não posso falar é da minha poesia. E não porque seja um inconsciente do que faço. Ao contrário, se é verdade que sou poeta pela graça de Deus – ou do demônio – também é verdade que o sou pela graça da técnica e do esforço, e da minha percepção absoluta do que é um poema”.

(extraído da revista Discutindo Literatura, ano 2, nº 12)


Um poema de Lorca:


Madrigal á cibdá de Santiago



Chove en Santiago
meu doce amor.
Camelia branca do ar
brila entebrecida ô sol.

Chove en Santiago
na noite escrura.
Herbas de prata e de sono
cobren a valeira lúa.

Olla a choiva pola rúa,
laio de pedra e cristal.
Olla o vento esvaído
soma e cinza do teu mar.

Soma e cinza do teu mar
Santiago, lonxe do sol.
Agoa da mañán anterga
trema no meu corazón.

(do livro Seis Poemas Galegos)


Para quem desconhece:

Lorca foi executado em Víznar em 19 de agosto de 1936, vítima do regime totalitário de direita do General Franco. Foi acusado por um deputado da direita católica de ser “mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver”. Tinha ideias socialistas e era homossexual. Foi dramaturgo e poeta, considerado como um dos maiores do seu tempo. Escreveu Romancero Gitano, Bodas de Sangue, Yerma, A Casa de Bernanda Alba, entre outras obras. Nasceu a 5 de junho de 1898 em Fuente Vaqueros.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A Revolução

[No limiar da eternidade (1890) - Vincent van Gogh]


Apenas esperas
A sorte
O ônibus o trem

A revolução não veio

É inútil esperar
Então cava
Planta
Colhe

O mundo fez-se vazio
Os homens vazios
Vazios são os sonhos
Todos Eles estão mortos

A revolução não veio

É inútil se enforcar
Ou invadir terras
Assaltar o mercado
Ou fazer guerras

Marte está próximo
Falam os fios
E computadores
Distantes estão as mãos

A revolução não veio

As mulheres são assassinadas
Os inocentes presos
Os protestos nulos
As eleições em outubro

A revolução não veio

A felicidade está nos mercados e nas feiras
Deus e o diabo brigam por dinheiro
Nas empresas e nas igrejas

Os homens estão desertos de utopias

A revolução não veio

Cavas em atônito silêncio
E tentas enterrar a tua dor
Pois não há remédios
Pois não há salvação

A brutalidade é alucinada demente
Corriqueira assassina

Precipitas a falar com fantasmas
Pois os homens se calaram com diálogos inúteis

Eles não vivem
Só de pão
Mas de ódios e guerras

E não houve revolução

Admirável seria rebelar-se
Insurgir-se contra todos
Mas é inútil lutar sozinho
E cometer um crime

Então apenas esperas
O ônibus
O trem
Pois a revolução não vem

Alex Zigar

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Um Livro Bom



O livro “Tempo Bom,”, lançado pela Iluminuras, não deseja apenas ser uma ótima leitura, mas uma boa ajuda também. A ideia é reverter todo o dinheiro da venda dessa obra para as vítimas das enchentes em Pernambuco e Alagoas.
Organizada pelos autores Sidney Rocha e Cristhiano Aguiar, a antologia de contos traz diversos nomes de escritores destacados da atual cena literária, como: Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Ronaldo Correia de Brito, Xico Sá, entre outros.

Vale a pena ler e ajudar!

domingo, 18 de julho de 2010

O talento de Kseniya

Foi através do blog da Ângela (Atelier Virtual Angela Catarina) que conheci o talento de Kseniya. Uma jovem ucraniana que faz da areia sua expressão artística.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Poema incompleto

[Sob a Chuva (1912) - Franz Marc]


Esta tarde caiu como páginas sombrias
Como um livro nebuloso e vago
Meu olhar se perdeu no horizonte

Subiu ao céu pequenas estrelas

Como em outrora e sempre
Ninguém viu o entardecer

Na margem da água mansa um sapo solitário cantou

A hora de voltar para casa chegou mais cedo
Os pássaros voaram para os ninhos

Ando desabitado
Com mãos abandonadas
Em busca de quem sou
Enquanto tudo morre

Alex Zigar

terça-feira, 25 de maio de 2010

Poema - A Poesia

Paulo Leminski – Sobre a poesia.



Surgiste como a Vênus
No céu azul cobalto
Sobre o mundo de ruínas

Surgiste como o sol
Surge numa manhã
Gélida e esquecida

Surgiste pura
Bela como a semente
Que germina na terra

Tu surgiste
Da noite ou do dia
Clara ou escura
Atravessou madrugadas azuis
Para pousar suavemente
No meu paladar

A tua procura
Caminhei solitário
Entre selvas densas
E vilas desabitadas

E tu surgiste
Ó poesia
Em longos ramos
Em profundas raízes
Num acorde mudo
De palavras

Alex Zigar

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Pessoal - 30 Dias Destoantes



Queridos leitores destoantes, hoje este espaço humilde, rústico e cru, está completando um mês de vida. E durante este tempo: mais de quatrocentas visitas (muito para um espaço sobre cultura e poemas); são vinte seguidores; dezenove postagens e mais de trinta comentários. O que me deixa feliz e ao mesmo tempo surpreso. Mas números não demonstram o carinho recebido durante este um mês. Realmente recebi palavras sinceras e afetuosas, que me deixaram sem letras destoantes para responder.

E, desde o nascimento até a tímida evolução deste blog, tudo, eu disse: tudo! Tudo se deve a todos os amigos e companheiros que participam constantemente, seja comentando ou visitando. Então gostaria de agradecer a vocês que colaboraram para estes trinta dias.

E nada melhor comemorar esta data com um presente e a participação de uma leitora destoante. Afinal, são vocês que fazem o blog acontecer. Eu gostaria de compartilhar aqui algumas fotografias da nossa amiga Cândida Barreto, que cedeu gentilmente as imagens para o blog. São fotos belíssimas que revelam a poética sobre a paisagem do Rio Grande do Norte.

Obrigado a todos pelo carinho. E apreciem um pouco das fotografias da Cândida.








segunda-feira, 17 de maio de 2010

Poema - Brasil

[Imagem Ana Cotta]


Brasil das árvores vermelhas
De homens vermelhos
Dos bosques queimados

Brasil país gêmeo
Da terra árida das águas pluviais

Brasil terras dos mares
Berço da mão do Atlântico
Que repousa em teu colo branco

Pátria dos párias
Abrigo do Amazonas

Brasil solo de brasa
Chão coberto de cerração branda
Fecundações de plantas

Nação portugalense
De filhos estrangeiros

Brasil de nome saudade
Das línguas múltiplas dos subúrbios
Da palavra rejeitada da cidade

Terra Santa
Batizada com o sangue dos tupis

Brasil dos navios negreiros
Da bandeira verde selvagem
Do quilombo dos palmares

Mãe dos pinheiros austrais
Do cerrado ocupado

Brasil das embocaduras dos rios
Da selva inundada por águas
Por machados bravos feito de brasas

Brasil da vermelhidão
Dos homens avermelhados
E do cheiro da madeira vermelha


Alex Zigar

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Texto – Arcimboldo: A Arte de Brincar.

Autorretrato


O primeiro Poeta foi Deus. Deus cansado de ficar sentado no trono com os anjinhos, não suportou o vazio que soprava na imensidão do seu reino e resolveu fazer Poesia. É certo que tudo que Ele criou ficou muito bom.

Todo artista quer ser Deus, quer ser Poeta. Deseja criar, deseja inventar. Afinal, o que leva um Poeta a escrever? Não é o sonho da criação? Não é dar prazer para seus admiradores? O desejo de Deus para sua criação não era que desfrutassem das delícias do paraíso?

Arcimboldo (se você não o conhece, então trate de conhecê-lo!) sabia disto perfeitamente. Cansado de ver sempre os mesmos quadros, ele resolveu inventar, ou melhor, brincar com as coisas. Em vez de retratar as pessoas “nobres” como eram vistas, tratou de dar um toque pessoal. Pintava como enxergava aquelas pessoas. Ou, talvez, apenas queria dar um novo sentido a Natureza-morta. Mas o certo é que sua arte ainda impressiona e nos deixa extasiados. Eu, particularmente, divirto-me muito olhando seus quadros. Gosto dos arranjos da natureza e da união dos objetos que formam outra coisa. Ver a arte de Arcimboldo é brincar com os olhos e com a imaginação.

O gênio extravagante e sensível do pintor deu para nossos olhos o deleite de ver uma arte gostosa. Que ensina a olharmos imensamente para seus quadros. E assim como Deus desejava que aproveitássemos do seu jardim, Arcimboldo deseja que gozemos com ele das coisas sérias. Pois a vida, assim como a arte, é uma grande brincadeira.

Aproveite deste sonho, deste surrealismo e se divirta! Mas atenção: Olhe calmamente duas ou mais vezes!

O Fogo (1566)


O Almirante


O Ar (1570)


A Terra (1570)


O Jurista (1566)


O Cozinheiro


Adão


Eva e a Maça (1578)


Vertemnus (1591)


O Cozido ou o Cozinheiro (1571)


Legumes em uma tigela ou Jardineiro (1572)


Inverno (1573)


Outono (1573)


Verão (1573)


Primavera (1573)


O Bibliotecário (1566)


A Água (1563 - 64)



terça-feira, 11 de maio de 2010

Poema - Celebrações do Prazer

[Imagens Balinto]


Êxtase e beleza


“Grave-me
como selo em seu coração,
como selo em seu braço;
pois o amor é forte, é como a morte!
Cruel como o abismo é a paixão.
Suas chamas são chamas de fogo,
uma faísca de Javé!”

Cânticos dos Cânticos ( 8: 6)


Tuas mãos possuem o aroma da terra
Teus lábios o gosto da chuva
Teus cabelos são longos ramos
Flores dos ipês
Teus olhos raios de sol sobre
Minha alma
Teu corpo são folhas e tronco
Que cresce sobre o meu
Teus seios são mananciais de prazer
Tua pele polpa carnosa
E teu ventre néctar das rosas

Por isso às vezes me perco
Entre silêncio e contemplação
Entre êxtase e beleza
Dentro de mim
Dentro de ti

E quando nos envolvemos
Minha amada
No calor da noite
Brota
Sobre a relva orvalhada
Com o suor dos nossos corpos
Em forma de flor resguardada
O amor que tanto sonhamos


Chamas

“Filhas de Jerusalém,
Eu conjuro vocês:
Não despertem, não acordem o amor,
Até que ele o queira!”

Cânticos dos Cânticos ( 8: 4)


Quem acendeu esta chama
Quais mãos incendiaram
Nossos corpos despidos
Entre a areia e o mar
Entre a noite e o dia
Queimamo-nos de imediato
Consumimo-nos num crepúsculo
Eterno e silencioso

Igual a labaredas
De cobiças e paixões
De sangue e alma
Meu desejo arde
Abrasa conflagra
Cada vez mais
Na fogueira
Do teu coração

E entre brasas e cinzas
Madeiras e piras
Surge sempre
Esta vontade de amar
De entregar
De estar em teus braços
Eternamente

Confluência

“Sua boca é um vinho delicioso
que se derrama na minha
molhando-me lábios e dentes”.

Cânticos dos Cânticos ( 7: 10)


Vou a tua procura
Como a primeira flecha
Que atingiu teu coração
Quando nos encontramos

Corro para teu colo
Como o rio
Corre para
Desaguar no mar

Busco tua pele
Como a terra
Deseja a semeadura

E tu também me desejas
Transparente claro nu
Junto ao leito da lua
Sobre uma cama verde

Tu sempre me amas
Caças minhas mãos
Caças meus lábios
Caças meu corpo

E quando finalmente nos encontramos
Oh
Perco-me no teu orgasmo

Provocações

“Beije-me com os beijos de sua boca!
Seus amores são melhores do que o vinho,
o odor de seus perfumes é suave,
seu nome é como óleo escorrendo,
e as donzelas se enamoram de você...”

Cânticos dos Cânticos ( 1: 2-3)


Tu me provocas
Com tuas mãos leves
Em meu peito
Com tua boca macia
Em meu corpo
Igual ao aroma da terra
Numa manhã silenciosa

Não fujas de mim
Não acanhes
Esta luz
Este calor
Este perfume
Que há em ti

Provocas-me e te amo
Entregas pela tarde caída
Teu corpo
Teu olhar
Teu riso
E te amo

Tu me provocas
De todos os modos
Basta teu olhar
Basta teu sorriso
Basta teu perfume
Bastam teus segredos
De mulher provocante

Suores e luares

“Venha, meu amado,
vamos ao campo,
vamos pernoitar debaixo dos cedros,
madrugar pelas vinhas.
Vamos ver se a vinha floresce,
Se os botões estão se abrindo,
Se as romãzeiras vão florindo:
aí lhe darei o meu amor...”

Cânticos dos Cânticos ( 7: 12-13)


E toco em teu ventre lentamente
Demoradamente vagueio nas brumas da lua
Escorrego por entre tua pele clara
Deslizando em teus lábios quentes e molhados
Sinto todo o meu corpo se perder
Diluindo dentro do teu
Reteso um pouco me afasto
Mas ainda te sinto dentro de mim
Sinto-te carregar meu espírito
Flutuando sobre meus suspiros
E sobre o véu dos teus gemidos

Tua língua resvala suavemente
No calor do meu ser
Candura das sensações nervosas
Encontramo-nos em êxtases
Em esparsos de desejos
Derramando minha alma na tua
Experimento teu perfume selvagem
E tuas fantasias noturnas

Queimando
Derretendo os corpos
Flui o espírito nu
Unindo os seres
Penetrando as línguas
Entre suores e luares
E entre lábios e carícias
Dois se transfiguram em um
Uma só carne de paixões e volúpias


Alex Zigar

sábado, 8 de maio de 2010

Poema - Última despedida

[Imagem por N.J]

Tu partes neste outono
Nesta lua nesta noite obscura

Tu partes
Com meu coração
Palpitando no teu
E com minha boca
Na tua

Tu partes como um fio de rosa
A se desmanchar nas docas
E a se perder num mar escuro

O silêncio invade à tarde
A violeta o mundo
A janela não abre
Tu partes

Custa saber
Que nunca mais
Ver-te-ei em meus braços
Tocarei em tuas mãos

Partir é ocasião
E todos partem

Mas custa-me saber
Que não voltas
Que são águas a escorrer
Brandas mansas e lentas
Entre as portas que tu fechas

Partir corta
Talha dilacera
Este perfume
Este sorriso estas palavras
E tudo esvai
E cai
Silencioso e vazio

Tu partes
Com uma parte de mim
E deixa outra parte de ti
Fundir-se lentamente
Em minha alma

Alex Zigar

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Poema - A Porta

[Imagem por Aaron Jack]


A porta está à espera como uma língua retorcida
Como serpentes feridas e esmigalhadas
Pelas forças dos cascos das éguas arredias
A porta entreaberta de som e luz
Convida-nos a todo o momento para abri-la
Não adianta adiar a hora
Ou roubar os ponteiros do relógio da catedral

A água escorre lá fora lenta
Cavalos cavalgam no mar e ameaçam invadir as cidades
Os bares e esquinas cheios de poentes não morrem
E os bairros e barris explodem de uma multidão insana
Com os dedos comidos e estômagos vazios
E a porta está à espera

Não antecipe a tua morte como já dizia o poeta
Haverá o momento de enfrentá-la
Abrirá aos poucos com golpes de navalha
Colhe tua mão o que pode se é que pode

Em certas horas eu oro em vão
Sou um marujo estranho entre meus pares
Não compreendo a ti e nem a mim ou Deus
A porta apenas espera
Mas o que há além da porta
Da janela eu olho lá fora
As plantações adormecem na terra vermelha
E os homens cavam incansavelmente a terra quieta e extraem mel
Eu me pergunto por que não fujo no dorso de Pégaso
Adiantaria eu fugir nos braços e nas pernas de uma prostituta
E as casas exalam o sexo reprimido e fenecem e fedem
Adiantaria fugir entre os alucinógenos do xamã

Sentei a mesa para tomar o inútil café
O céu estava encurvado como num quadro de van Gogh
Todos ainda dormiam
Alguma esperança vazia e nula me trouxe aqui
Poderia ser Jó e caminhar dez léguas e nada mudaria isto
Um pedaço de lembrança dentro de mim dança

O que há depois da porta
Fulanos
Carros
Sapatos
Eu vou atravessar a rua e parar diante de um semáforo
Jornais lêem velhas notícias
É dezembro e inicia a estação das chuvas
É triste as mãos desocupadas não criaram nada
Há pão sobre a mesa e também um pouco de manteiga
Na estante adormece um livro que nunca vou ler
O silêncio acorda dentro de mim
É preciso esmurrar a porta

Nesta manhã eu estou sentado tomando o inútil café
Sem relógio e sem casaco
Sobretudo eu noto a porta
E a vejo em todos os lados


Alex Zigar

terça-feira, 4 de maio de 2010

Opinião – Filmes relacionados com a arte da pintura


A vida dos pintores sempre rendeu bons frutos e inspirações para o cinema. Afinal, a vida desses artistas é dominada pelo desejo exclusivo de criação. Fernando Pessoa expressou muito bem esse desejo num poema que é quase uma oração:

“Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.”

O choque com uma realidade extremamente medíocre e, às vezes, estúpida termina por gerar um intenso conflito com a sensibilidade do artista, que, por fim, tem uma vida digna de roteiro de cinema. Roteiro que na mão de grandes diretores com excelentes atores pode render muito mais do que apenas um bom filme. Transforma-se numa obra de arte.

Selecionei cinco filmes relacionados com a arte da pintura. Os critérios levados para seleção dos vídeos são totalmente de gosto pessoal:

5 - Pollock – 2000

Jackson Pollock foi vítima de si mesmo. Considerado um dos maiores pintores americano do século 20, o filme conta a história do gênio: do anonimato ao sucesso (criador da técnica "action painting"); e do sucesso a degradação pelo vício do álcool.




4 - Sombras de Goya (Goya's Ghosts) - 2006

Interpretações sensacionais de Natalie Portman (Inês), Javier Bardem (Frei Lorenzo) e dirigido por Milos Forman (Amadeus). Sombras de Goya retrata um período da vida do pintor espanhol, numa época de turbulências políticas. Francisco de Goya (Stellan Skarsgard) é um observador dos dramas causados por disputas ideológicas, o que causa grande impacto nas suas pinturas.




3 - Frida – 2002

Frida é um filme sensacional. Retrata a vida não de uma simples mulher, mas alguém muito além do seu tempo. Ótima atuação de Selma Hayek (Frida Kahlo) e Alfred Molina (Diego Rivera). A direção ficou a cargo de Julie Taymor.




2 - Agonia e êxtase (The Agony and the Ecstasy) - 1965

Baseado no best-seller de Irving Stone, o filme mostra a agonia e o êxtase de Michelangelo (Charlton Heston) na criação de uma das mais belas pinturas do mundo: o teto da Capela Sistina. Mostra também o espírito de um verdadeiro artista e gênio diante de uma criação e a mediocridade do senso comum, Papa Júlio II (Rex Harrison).




1 - Sede de Viver (Lust for Life)- 1956

Também baseado no romance Best-seller de Irving Stone, Sede de Viver retrata a vida do genial Vincent van Gogh. O filme rendeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Anthony Quinn no papel de Paul Gauguin. Mas a atuação de Kirk Douglas (Van Gogh) também é simplesmente fascinante tanto que lhe valeu o Globo de Ouro. A direção foi de Vincente Minnelli.

domingo, 2 de maio de 2010

Poema - Fogo e Fúria

Francisco de Goya (1746–1828)
Saturno devorando um filho (1819-1823)
Óleo sobre reboco transladado a tela, 146 x 83 cm
Museu do Prado, Madri

Giram as imensas rodas da fortuna
Em fogo e fúria
As noites escuras
Caem com sangue e ternura

Seria puro ser o galopar da morte
E não temer o desconhecido
Entregar-me como as folhas caídas
Ao mar e as tormentas
E esperar no cais as ondas brutas

Porque foge os passos e os caminhos
Em ladrilhos escondidos pela vegetação
Sempre a perder em sonhos
Dentro de nuvens incertas e de chuvas infinitas
Porque cai o relógio e o guarda-chuva
Das frágeis mãos que o tempo torna

E jamais domamos a carruagem da vida
Que gira e gira com as imensas rodas da fortuna
Em fogo e fúria

Alex Zigar

sábado, 1 de maio de 2010

Conto - O Sorvete

Vincent van Gogh (1853 - 1890)
Os Comedores de Batata (1885)
Óleo sobre tela, 82 X 114 cm
Van Gogh Museum, Amsterdã


Era José, João ou Mané. Era mais um entre tantos. Bigode fino, olhos fundos, aparência de cansado. Pele enrugada, um dente arrancado, mãos duras e ásperas como ferraduras.

Cavar a terra, amolar o facão,
cavar a terra, amolar o facão.

Ele acordava antes do galo. Voltava para casa depois do pôr-do-sol. Tinha quatro filhos, duas meninas e dois meninos. A mulher era obesa, seios flácidos, caídos, cabelos despenteados. A casa era alugada, casa de fundo, edícula, sem reboco, sem azulejo, infiltrações. Saudade dos parentes, da terra natal.

Cavar a terra, amolar o facão,
cavar a terra, amolar o facão.

Maria brincava na sarjeta quando viu o sorveteiro. A criança tinha dedos sujos. Roupa remendada. Cabelos rebelados contra o vento. Queria sorvete. Correu. Pediu dinheiro a mãe.

- A menina quer sorvete! - gritou a mulher para ele.

- Não tenho dinheiro – rebateu ele com a voz abafada.

Maria entrou no quarto onde estava o pai. Ficou a olhá-lo. Ela tinha olhos fundos iguais aos dele. Olhos de piedade e de incompreensão, olhos de ternura.

Há muito tempo ele não chorava, apesar das amarguras da terra. Não tinha culpa. Não culpava ninguém, nem patrão, nem político, nem Deus. Mandou a criança sair do quarto. Chorou e chorou.

Cavar a terra, amolar o facão,
cavar a terra, amolar o facão.
Cavar a terra, amolar o facão,
cavar a terra, amolar o facão.

No dia seguinte ele não foi trabalhar. Acordou ao meio-dia. Vestiu a roupa mais bonita. Foi à igreja. Era sexta-feira. Aproximou-se do padre. Deu um murro na cara do religioso, em seguida pegou a caixinha do altar e saiu.

De noite ele e a família foram a uma sorveteria. Maria chupou sorvete até lambuzar o rostinho.


Alex Zigar

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Poema - À espera

Foto por Alex


Quando numa manhã qualquer
Entre a xícara e a mesa nua
Baterem a porta
As camisas estarão lavadas
Os sapatos pendurados
E a louça pronta

Eu mesmo estarei banhado
Puro para um abraço inteiro
Mas nunca completo

Talvez eu termine uma velha carta
Conserte o antigo rangido da porta
Não leio as mesmas notícias envelhecidas
E acabo de vez com a agonia de ser homem

Quando numa manhã qualquer
Baterem a porta
Quero me desfazer deste corpo despido
E desta humana alma farta das coisas

Quando baterem a porta
Estarei guardado com as roupas e os calçados
Esquecido num retrato apagado
Longe das vozes e das luzes
E já delirando com alguma lembrança
Que não recordava mais

Alex Zigar