sexta-feira, 30 de abril de 2010

Poema - À espera

Foto por Alex


Quando numa manhã qualquer
Entre a xícara e a mesa nua
Baterem a porta
As camisas estarão lavadas
Os sapatos pendurados
E a louça pronta

Eu mesmo estarei banhado
Puro para um abraço inteiro
Mas nunca completo

Talvez eu termine uma velha carta
Conserte o antigo rangido da porta
Não leio as mesmas notícias envelhecidas
E acabo de vez com a agonia de ser homem

Quando numa manhã qualquer
Baterem a porta
Quero me desfazer deste corpo despido
E desta humana alma farta das coisas

Quando baterem a porta
Estarei guardado com as roupas e os calçados
Esquecido num retrato apagado
Longe das vozes e das luzes
E já delirando com alguma lembrança
Que não recordava mais

Alex Zigar

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Poema - Meu Desejo

Gustav Klimt (1862 - 1918)
O Beijo (1907- 1908)
Óleo sobre tela, 180 × 180 cm
Österreichische Galerie, Viena


Como é doce a noite que cai em teu colo
e o orvalho da manhã nos teus seios
Como é pura tua boca
macia e pura
rósea e de sonhos secretos
Trago fogo nos ladrilhos da alma
para queimar toda palha de desejo

Quero teus pés rodando e rodando
caminhando a luz do crepúsculo
E teus olhos claros
de pupilas felinas e todo castanho
pedindo sutilmente um beijo

Não
não posso negar-te nada
porque nada é meu
e nada sei sobre estas coisas escondidas
e sobre o amor que trago comigo
Querer e não querer
o que eu sei desta vontade ardente
que me prende na tua pele
igual ao sabor do vinho na uva

Alex Zigar

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Curiosidade - Leitura

Monteiro Lobato dizia que um país se faz com homens e livros. Reformulando este pensamento: os seres humanos só poderão construir um país justo com livros. Então, para isto acontecer devemos começar hoje. Ensinando nossos jovens como funciona um livro:



E depois incentivá-lo sempre:

terça-feira, 27 de abril de 2010

Poema - Elegia 2008

Vincent van Gogh (1853 - 1890)
Campo de trigo com corvos (1890)
Óleo sobre tela, 50,5 x 103 cm
Van Gogh Museum, Amsterdã


A tua dor não para os motores
As engrenagens dilatam o teu suor
A tua agonia salga o açúcar do teu remédio
A morte é o silêncio que ninguém explicou
E o silêncio cala a noite
E existem dias mudos

Compreendes que é homem
Com dois pares de sapatos apenas
E que caminhas só
E já não pode se matar
A tua dor é igual à de milhões
Escondido sofres em silêncio

E ninguém viu o que fizeste
Se tua mão enrugou
Ou se teus pés invadiram terras
O amor evaporou em tarde amargas
E tudo é alheio e estranho
Atravessas o desconhecido
Carregando uma cruz que não é tua
As portas estão fechadas
E ninguém avisou
Que os melhores poemas nascem da dor

Ninguém ouviu tuas ideias
Que caminham lentas e mortas
Como folhas tolas desprendidas
Do alto de um galho enrugado
E há corredores abandonados
E estradas obscuras
Que não levam a parte alguma
Encontras com teus velhos desejos
E com os sonhos patéticos já esquecidos
E dialogas com eles calado

E tu vês só agora
Que as coisas envelheceram um pouco
E nada fizeste durante estes anos
Apenas suportaste a agonia de ser homem
E percebeste que o teu coração não mudou o mundo
Mas o mundo mudou teu coração
Mesmo que tu não quiseste
Aceitas por fim o que existe e dorme

Alex Zigar

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Conto - O Assalto

Paul Gauguin (1848-1903)
De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? (1897)
Óleo sobre tela, 139.1 x 374.6 cm
Museu de Belas-Artes, Boston


Ela aproximou-se.

- O que é a morte? - indagou.

Ele olhou profundamente naqueles lindos olhinhos castanhos, que reluzia a luz crepuscular de mais um domingo. Sentiu-se incomodado com a pergunta. Logo ele, conhecido por seu jeito profético e filosófico de dizer as coisas. Todos o chamavam de pensador. Sabia dizer coisas, coisas que surpreendiam as pessoas. Mas, naquele instante, não conseguia encontrar uma resposta para aquela pergunta, aparentemente simples.

Era só responder qualquer coisa, pois a questão tinha sido formulada por uma menininha. Porém a questão não era saber responder a uma criança, e sim responder para ele mesmo. O que dizer? Ela esperava. Parecia angustiada. Ele se levantou, quis sair dali, daquele embaraço. Havia crianças na rua. Velhos conversavam sobre coisas antigas. Moças corriam para tomar o banho. Senhoras se arrumavam para a missa. Os pássaros retornavam para o ninho. A morte é a morte, ora. É morrer. É não existir. Nunca mais. Nunca mais! Essas palavras fizeram seu corpo estremecer. Olhava a sua volta. A vida continuava. Nunca mais. Uma angústia o dominou densamente. Pensava que nunca mais iria voltar a viver. Fazer as velhas coisas, velhos hábitos. Teve ódio daquela criança.

Entretanto, compreendeu que mais cedo ou mais tarde, ele seria assaltado num fim de domingo, que mais parece o fim de tudo, e não há melhor momento para se pensar na morte, pois tudo parece morrer.

Como ele demorou a responder, a menina foi brincar com as outras crianças, que estavam na rua. E ele, depois de um momento, enfiou as mãos nos bolsos da calça e saiu dali como se nada tivesse acontecido.


Alex Zigar


domingo, 25 de abril de 2010

Poema - Ausência

Foto por Emely Leoni


Tu ficaste ausente
E na tua ausência
Nada ocorreu
As coisas
Não aconteceram

Não houve o café
Ninguém sentou a mesa
Para conversar
Ninguém abriu a porta da sala
Para as visitas
Tudo ficou silencioso e mudo

Os móveis ficaram
Cobertos de pó e solidão
Os tapetes se recolheram
As flores deitaram mais cedo
E o livro aberto na escrivaninha
Ficou por ler

Não existiram passos no corredor
Nem riso nem choro
Tudo ficou ausente e suspenso
Calado e retraído

A noite não se fez
Ficou vazia e caída
As tardes não aconteceram
Foram apagadas ou riscadas
A madrugada ficou por fazer
Como teias inacabadas das aranhas


Alex Zigar

sábado, 24 de abril de 2010

Curiosidade - Os Gatos

Os gatos são animais peculiares, tanto na cultura popular quanto nos meios literários. Estes bichanos são sempre motivos de admirações, crendices e inspirações.

O dicionário Aurélio os define como: “Animal mamífero, carnívoro, felídeo (Felis cattus domesticus), digitígrado, de unhas retráteis, domesticado pelo homem desde tempos remotos, e usado comumente para combate aos ratos”. Já para os poetas e escritores os gatos são fontes inesgotáveis de inspirações. Que digam Edgar Allan Poe (O Gato Preto), T.S. Elliot (Old Possum's Book of practical Cats), Pablo Neruda (Ode ao Gato) e tantos outros.

Os gatos carregam consigo um misticismo atraente. Na crendice popular são capazes de ver almas penadas e os de cor negra são sinais de azar para alguns. Estão eternamente entrelaçados com a figura da bruxa. Quem nunca viu a imagem do felino ao lado de uma feiticeira? Já no Antigo Egito os bichanos eram consagrados à deusa Bastet, protetora da casa, das mães e das crianças. E nos dias atuais eles já estão nas páginas coloridas dos quadrinhos: Mulher Gato e Garfield.

Particularmente, não sei quais os segredos de tanta atração e fascinação que os gatos exercem sobre nós. Talvez eles realmente tenham uma ligação com o sobrenatural ou são mesmo apenas animais comuns. O certo é que este mistério só aumenta mais o nosso encanto e admiração por eles. Miau!




sexta-feira, 23 de abril de 2010

Poema - Trabalhadores da Terra

Jean-François Millet (1814 - 1875)
Angelus (1857 - 1859)
Museu de Orsay, Paris


Há homens sobre telhados envelhecidos
construindo uma latejante esperança
sob uma fina chuva de janeiro
e nas aldeias
as mulheres
operárias incansáveis
esperam
ansiosas o parto de outro dia

Há homens em campos extensos
cavando a terra lentamente
sem pão que os alimentem
a tua semente que não veio
porque o chão é de outrem

Há assassinos livres
e poetas presos
na alma dos homens caídos
e nas mulheres nuas
perdidas entre ruas
vazias de sonhos e desejos

Há homens nas feiras
lutando com laranjas e maças
extraindo suor da face e dos braços
para fazer do trigo o pão de amanhã

Há homens consumidos
desgastados pelas engrenagens
dos imensos motores que rodam sem parar
em fábricas estrangeiras
em subúrbios esquecidos e desabitados

Há homens em túneis
sob os montes ou dentro das matas
ou nas cidades
abarrotadas de lixos e barracos
entre missas e submissas
matando e se matando
para matar a fome dos filhos

Sobretudo
há homens e mulheres
em quartos frios ou alheios
dentro de plataformas ou em prédios
cruzando esquinas ou encruzilhadas
rezando para o que ainda resta
a fé
os milagres
os santos


Alex Zigar



quinta-feira, 22 de abril de 2010

Conto - Acorde-me

Pablo Picasso (1881 - 1973)
Cabeça de uma mulher dormindo (detalhe) (1907)
Museu de Arte Moderna,
Nova Iorque

Foto por Tomás Fano


Lembro-me da última paisagem antes de dormir. Era uma vasta planície que circundava todo o horizonte. Na estreita linha entre céu e terra, o sol parecia derreter lentamente derramando mais e mais sua delgada luz alaranjada. No meu lado esquerdo um homem de aspecto taciturno olhava penetrante para frente, na direção que encontrava o banco do motorista do ônibus, onde nós estávamos.

O vento que entrava numa das janelas do lado oposto e o balançar insistente e monótono do veículo aumentava ainda mais minha sonolência. Não pude resistir à pressão das pálpebras. Dormi.

De repente despertei. Levantei-me e fui até a praia, que estava deserta. Fazia um lindo dia. O sol irradiava no seu maior esplendor, ao andar meus pés tocavam as ondas como numa sinfonia e afundavam levemente deixando um rastro na areia que depois se apagava.
Lá do outro lado, ele surgiu vigoroso, estava próximo da nossa mansão branca.

- Cléo! – chamou-me.

Levantei a mão respondendo. Ele veio ao meu encontro. Abracei-o fortemente contra o peito. Rezava tanto por este momento e aconteceu. Lua-de-mel com o homem da minha vida. Bem no paraíso.

Tudo havia transcorrido bem durante o dia. Quando a noite veio macia e doce, eu só desejava dormir. E rezava para ter um sono mais agradável do que tivera na aquela manhã. Plasmem! Eu acordara por causa de um pesadelo, no qual era uma simples funcionária de uma fábrica razoável que se deslocava todo dia, incansavelmente num ônibus de linha suburbana durante meia hora. Ganhando pouco mais que um salário mínimo.

Deitei-me levemente na cama. Nem mesmo vi meu esposo se deitar. Simplesmente apaguei-me.
Uma voz levantou mais alta. Dei um pulo de susto. Acordara. Mas não sabia onde me encontrava. Estava escuro e frio. Percebi que estava seminua sobre uma enorme cama. A luz da alcova se ascendeu e um homem apareceu rente à porta. Era baixo, gordo, olhar profundo, barba rala e pele morena. Olhou-me e disse:

- Cliente.

- O que? – Perguntei assustada

- Está esperando – disse calmamente

- Quem é você? O que estou fazendo neste lugar imundo? O que pretende fazer comigo? – indagava assustada.

Sua expressão foi um espanto só, seu cenho franziu confuso e perturbado.

- Você está bem Vênus?

- Quem é Vênus?! - gritei nervosa.

- Ora, você.

- Eu! Não! Você deve ter me confundido – disse ao homem gordo. Meu nome é Cléo.
Ele ficou mais espantado e confuso.

- Cléo? Ficou louca V.

- Não sou V! - gritei mais alto.

- Pare de brincadeira, pois você está me assustando - disse sério. O cliente está à espera.

- Que cliente? – indaguei mais irritada.

- Acorde meu bem! Em que sonho você está? Ora, que cliente? Sei lá, é somente mais um.

- Do que você está falando? Com quem pensa estar falando?

- Com a poderosa Vênus – respondeu ele prontamente. A melhor prostituta da Avenida 12, que de repente resolveu ficar maluca.

Ah! Havia entendido tudo. Era só mais um sonho. Logo acordaria dentro de um ônibus.


Alex Zigar

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Poema - Tempo de Matar

Foto por Alex Zigar


Matam-se homens
Como se matam gados
Calam-se homens
Como se calam um carneiro
Com arame-farpado
Batem-se numa fúria vazia
Com sapatos sujos

A invadir e a perseguir
As ovelhas e os bezerros
A derramar o vinho e o leite
A plantar a solidão e lágrimas
Nos bebês e donas de casas
A nos assustar com cruzes
Ou anjos caídos
A mentir e a enganar
A subornar com café
Ou uma xícara de chá

Assaltam roubam
E retiram a esperança
Com uma faca profana
Ou uma arma insana

Matam-se homens
Pois é preciso matar

Alex Zigar