sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Engenheiros do Hawaii - Piano Bar



Poucas bandas têm letras de músicas tão complexas como as dos Engenheiros do Hawaii. Sei que isto não é motivo para se ouvir música, mas para quem deseja sair um pouco do banal, eis uma ótima opção.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Para quem você guardará um Planeta?

["O Mármore Azul" a Terra vista da Apollo 17 (1972) - NASA]



Para quem você guardará um Planeta?


Para quem você deixará um planeta verde e limpo?
Para o homem burguês que está preocupado
Com as criancinhas que vivem nas ruas comendo bosta?
Ou para o homem máquina/industrial preocupado
Em jogar produtos químicos no rio que corre próximo a nossa casa
E que alimenta os pescadores pobres e deixa felizes os nadadores de fim de semana?
Deixará uma planta azul e sem contaminação
Para os filhos dos políticos preocupados em criar leis
Contra as queimadas, lixões e tráfico de animais?
Ou deixará um planeta vivo
Para o homem médio televisivo preocupado com a matança de baleias no Japão?
Você guardará um planeta
Para quem acredita que ele será destruído por Deus?
Ou para os imperadores americanos preocupados com a violência na América Latina?
Para quem você guardará um planeta:
Único, singular
E que roda, e que gira e que flutua no vazio?

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O Gato de Rua

[Briga de Gatos (1786-1787) - Goya]



O Gato de Rua


O gato de rua é arisco,
Desconfiado,
Mas igual aos outros gatos.
Pula janelas e telhados
Ronrona
Lambe-se
Tem olhos ágeis de cristal puro
Assombra a noite
A noite o torna assombrado.

O gato de rua
Suja-se na terra e procura alimento na lixeira
E dorme ao relento
E se molha durante o temporal
E briga com outros gatos por causa de uma gata.
Tem sete vidas
Mas morre atropelado,
A vassouradas, envenenado
E por espingarda de chumbinho.
É odiado por cães,
Donas de casas pragmáticas
E por tiozinhos estúpidos.

O gato de rua arranha,
Morde,
Caça pássaros, ratos e insetos.
Pode transmitir toxoplasmose
É suscetível a parasitas e doenças severas
E às vezes sobrevive da caridade de algumas pessoas
Recebendo pão amanhecido e leite frio.

O gato de rua é igual aos outros gatos
Pois também é contrário ao colo
Ao dono
Tem seu próprio estilo
Mas mia quando sente fome
Sede, dor ou deseja ser acariciado.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Saúdo o Homem Simples

[Cabana com camponês regressando à casa (1885) - Van Gogh]



Saúdo o Homem Simples


O homem que é simples
Na sua simplicidade rústica e inteligente
Que labuta contra o mato
Açoita a terra vermelha
Abre caminho
Planta, rega, colhe
Sofre de cansaço na noite
Crê na ressurreição das almas
Mas nunca viu milagres
A não ser ele mesmo e as coisas que não compreende.

O Homem que é simples
Que ama a manhã e os bichos
E faz comunhão com o sol e com o pão
Que não entende a guerra do mundo
Nem os movimentos das bandeiras e as divisões da terra
Desconhece a metafísica e a gramática
Que não odeia
Que não mata
Que de tão simples e puro
É quase improvável sua existência.
Mas existe
E eu o saúdo.


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

The Kills - No Wow



Alison Mosshart e Jamie Hince

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Águas de Janeiro



Águas de Janeiro



As chuvas que regam os campos

Enchem os rios e os ribeirões
Não sabem dos homens
Das suas construções parcas e inclinadas
Não conhece a casa dos Silvas,
Dos Oliveiras e dos Pereiras.

E o morro desce no Rio de Janeiro
A TV anuncia os caos
E o Rio é longe, longe das minhas mãos
Mas suas águas me atingem
Afogando-me.

E o morro desce
Alcança meu corpo
Traz barro e pedra
Vigas, ferros e objetos irreconhecíveis
O morro apaga tudo.
Mas o barro não enterra a dor dos moradores
E nem a vergonha dos prefeitos incapazes.

E o morro desce em Janeiro no Rio
E as águas do Rio em Janeiro descem.

E as chuvas não sabem o que levam
Nem o que trazem
Apenas despencam em gotas graves
Para encherem os Rios e os Ribeirões.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Mais Um Dia

[Retrato de Dr. Gachet (1890) - Van Gogh]



MAIS UM DIA


A página em branco
E o pó circundante
Dizem-me algo
Mas ensurdeço
E como Édipo
Arranco os olhos
E continuo a viver.


Achei meu livro ruim
Rasguei-o junto ao coração selvagem
Como alguém que retira as próprias tripas
E as joga aos leões
É preciso erguer-se depois das cinzas
Criar asas – esse e o meu pensamento
E nada mais importa.


Fecho a porta e desço para a cidade
As ruas completas de caras e olhos sombrios
E estou sombrio e caminho sombrio
Nenhum barco atravessará a correnteza
E nenhuma bebida dará clareza ou ânimo
Ainda penso sobre poemas e Oppenheimer
Enquanto o sol avança para o mar
Fecho os olhos para sonhar outra vez.