sábado, 28 de agosto de 2010

Dor na Noite

[Two Blue Horses (1911) – Franz Marc]



A dor ainda rouba-te o sono
Não
Não tens sono
Vives como sonâmbulo
Espectro da noite
Que ficas para assistir ao espetáculo na TV
E ficas mudo
Não
Não comunicas para o mundo o que sentes
Mas o que é que sentes

A TV anuncia o fim do mundo
O tiro A bala
A morte da mãe grávida
A justiça errada
De repente percebes que não é apenas espectador
Também fazes parte do espetáculo

Porém não sabes
Nada se resolve Para curar tua dor no meio da noite

Pensas demais e nada fazes

Enquanto outros trabalham
Operam máquinas estrangeiras
Para inventar remédios e curar a dor de outros
Tens apenas um papel e um rabiscar patético

Escreves na madrugada
Mas por que escreves
Para ser ridículo
Para criar mundos Para ser Deus
Que consolo
Que bem
Que proveito tens Das tuas infâmias escritas que ninguém lê

O operário na obra ignora a ópera

Não sabes
Os poetas foram expulsos da República

Eles não recitam mais nas praças
Não cantam nos palácios
Nem nos teatros

Escreves para ti então
Para os bêbados e para os loucos

Não percebes
Teus poemas são um balbuciar de um demente
A bater e a xingar a si mesmo

Escreves para esquecer a dor

Não
Não A poesia não te salvas
E a dor ainda rouba-te o sono

Alex Zigar

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Lorca e a Poesia



“Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da Poesia. Isso fica para críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a Poesia.

Aqui está; olha. Tenho fogo em minhas mãos. Eu o entendo e trabalho com ele perfeitamente, mas não posso falar dele sem literatura. Compreendo todas as poéticas; poderia falar delas se não mudasse de opinião a cada cinco minutos. Não sei. Pode ser que algum dia eu goste muito da má poesia, como gosto (gostamos) hoje, com loucura, da música má. Queimarei o Partenão durante a noite, para começar a erguê-lo pela manhã e não terminá-lo nunca.

Em minhas conferências tenho falado às vezes da Poesia, mas a única coisa de que não posso falar é da minha poesia. E não porque seja um inconsciente do que faço. Ao contrário, se é verdade que sou poeta pela graça de Deus – ou do demônio – também é verdade que o sou pela graça da técnica e do esforço, e da minha percepção absoluta do que é um poema”.

(extraído da revista Discutindo Literatura, ano 2, nº 12)


Um poema de Lorca:


Madrigal á cibdá de Santiago



Chove en Santiago
meu doce amor.
Camelia branca do ar
brila entebrecida ô sol.

Chove en Santiago
na noite escrura.
Herbas de prata e de sono
cobren a valeira lúa.

Olla a choiva pola rúa,
laio de pedra e cristal.
Olla o vento esvaído
soma e cinza do teu mar.

Soma e cinza do teu mar
Santiago, lonxe do sol.
Agoa da mañán anterga
trema no meu corazón.

(do livro Seis Poemas Galegos)


Para quem desconhece:

Lorca foi executado em Víznar em 19 de agosto de 1936, vítima do regime totalitário de direita do General Franco. Foi acusado por um deputado da direita católica de ser “mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver”. Tinha ideias socialistas e era homossexual. Foi dramaturgo e poeta, considerado como um dos maiores do seu tempo. Escreveu Romancero Gitano, Bodas de Sangue, Yerma, A Casa de Bernanda Alba, entre outras obras. Nasceu a 5 de junho de 1898 em Fuente Vaqueros.