quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Poema - Se eu permitisse que o amor escorresse da minha alma?

[Quatro Girassóis Cortados (1887) - Van Gogh]


Se eu permitisse que o amor escorresse da minha alma?


E se eu permitisse que o amor escorresse da minha alma
O que restaria de mim
Desta matéria da qual sou composto
Carne e osso?

Poderia algum dia juntar-me aos homens
Compartilhar do mesmo alimento
Sentar-me a mesa da Santa Ceia
Sem, contudo ficar constrangido?

E quando beijar-lhe a face
Não seria o beijo de um traidor?


Mas o amor não está suspenso dos homens?
Não é senão coisa abstrata, mentira escarrada?


Tenho aprendido com os homens
A não fazer guerras e nem religião

Tenho aprendido a viver pouco

Tenho aprendido a ter piedade e compaixão
Para não construir bombas nucleares
E varrer a Terra de vez


É preciso se desesperar com os homens
E indagar ao final da madrugada
No amplo silêncio do infinito
Sobre se eu permitisse
Que o amor escorresse da minha alma?


Alex Zigar

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Poema - Inconstâncias

[Rousse, La Toilette (1896) - Toulouse-Lautrec]


Inconstâncias


Onde estão tuas mãos?
Nesta noite seca elas não desceram
Para acalmar-me da loucura do mundo


Abro a janela
Há tiros e inconstâncias nas ruas

Ficamos sós.
Em noites silenciosas teu corpo nu me marcou
Como o galopar de um animal selvagem

Escuta
Há tiros e inconstâncias nas ruas

Hoje não tenho tua pele na minha
Nem literatura nem poesia


Tenho carros e discussões absurdas nas ruas


Não, não nos entendemos
Ninguém se compreende no tumulto

Fiquei só.
Em noites silenciosas teus seios e tuas pernas
Adentraram sussurrando em meu corpo


Nota
O mundo não tem calma nem cama
Para silenciar-se ou gozar
É apenas tumulto
Que nos confunde e funde na incompreensão
Das mãos


Não sejamos como o mundo


Nesta noite ficamos sós. Distantes.
Ouvindo as inconstâncias das ruas
Sem silêncio nem gozo.


Alex Zigar