quinta-feira, 29 de julho de 2010

A Revolução

[No limiar da eternidade (1890) - Vincent van Gogh]


Apenas esperas
A sorte
O ônibus o trem

A revolução não veio

É inútil esperar
Então cava
Planta
Colhe

O mundo fez-se vazio
Os homens vazios
Vazios são os sonhos
Todos Eles estão mortos

A revolução não veio

É inútil se enforcar
Ou invadir terras
Assaltar o mercado
Ou fazer guerras

Marte está próximo
Falam os fios
E computadores
Distantes estão as mãos

A revolução não veio

As mulheres são assassinadas
Os inocentes presos
Os protestos nulos
As eleições em outubro

A revolução não veio

A felicidade está nos mercados e nas feiras
Deus e o diabo brigam por dinheiro
Nas empresas e nas igrejas

Os homens estão desertos de utopias

A revolução não veio

Cavas em atônito silêncio
E tentas enterrar a tua dor
Pois não há remédios
Pois não há salvação

A brutalidade é alucinada demente
Corriqueira assassina

Precipitas a falar com fantasmas
Pois os homens se calaram com diálogos inúteis

Eles não vivem
Só de pão
Mas de ódios e guerras

E não houve revolução

Admirável seria rebelar-se
Insurgir-se contra todos
Mas é inútil lutar sozinho
E cometer um crime

Então apenas esperas
O ônibus
O trem
Pois a revolução não vem

Alex Zigar

19 comentários:

  1. o mestre Van Gogh...
    admiração tamanha, emoção tamanha eu sinto!
    difícil até explicar,
    e a composição das tuas palavras,marcam este post com um silêncio marcante...

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  2. tudo, muito forte...

    abraços com carinho,

    Angela

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  3. se me permite, vou deixar um link, não sei se já teve a oportunidade de assistir esse vídeo...


    http://www.youtube.com/watch?v=nkvLq0TYiwI&NR=1

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  4. Ângela, obrigado pela visita. Sem dúvida, “Starry Starry Night”é uma belíssima homenagem, sobretudo hoje, quando se completa 120 anos da morte do artista. Creio que já percebeu o quanto admiro este pintor. Obrigado.

    Abraços!

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  5. Muito boa a ideia gancho do poema, uma revolução que não veio, mas mesmo assim temos: As mulheres assassinadas / inocentes presos / protestos nulos e ainda mais: brutalidade alucinada / demente / Corriqueira assassina

    Parece que por aqui, em nosso país, já vivemos no clima da revolução, apesar dela não chegar nunca.

    A revolução não veio. Muito bom.

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  6. o quanto nós admiramos Alex...
    e o quanto eu o respeito também...

    sim, eu sei,
    e senti que o fez, como uma homenagem neste dia...

    mais um abraço!

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  7. Alex, acabei de ouvir no rádio que devemos fazer uma revolução... acho que vc já começou, revolucioando com poesia! Abçs!

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  8. Kovacs, agradeço a visita e o elogio. Realmente o Brasil é o eterno país do futuro. Neste poema, assim como em “Elegia 2008” (outro poema de minha autoria), o eu-lírico encontra-se num eterno ponto de espera. Humano, fragilizado por uma sociedade egocêntrica “Marte está próximo(...)/Distantes estão as mãos”, convive com a sua realidade externa: violência e injustiça; e interna: vazio e ilusões. Como um animal numa jaula, não adianta se debater. É preciso existir apesar do absurdo. A revolução é a mudança que sempre esperamos (existencial, social, etc).

    Mais uma vez obrigado.

    Abraços!

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  9. Ângela, obrigado por este carinho. Sempre fico muito contente com sua participação. E feliz também por saber o quanto você aprecia a obra do gênio holandês. Realmente seus quadros são sensacionais. Mais uma vez agradeço.

    Abraços.

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  10. O que seria deste blog sem seus comentários, Franck? É impressionante sua constância e o seu carinho. Só tenho que lhe agradecer por isto. E sim, vamos fazer uma revolução neste país injusto.

    Abraços!

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  11. Seja bem-vinda a Letra Destoante, Marihanna. Fico contente em saber que alguém está lendo minhas oblíquas letras. E sublime é usar mesóclise. Obrigado pela visita.

    Abraços!

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  12. Este não é apenas um poema, é um poema social, irmão dos de Brecht, Maiakovski.

    Ninguém faz nada sozinho. E tudo continua.
    A vida continua.
    Não há revolução de um só.

    Abraços, Alex.

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  13. Richard, obrigado pela visita. Realmente a revolução não aconteceu e na noite sangram-se as dores do dia.

    Mais uma vez obrigado.

    Abraços.

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  14. retribuindo a visita! muito lindo o teu blog... concerteza irei passear muito por aqui!

    abraços

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  15. Alex, só pra vc saber que mesmo com a correria vim passar por aqui e ver as coisas novas.
    Continue com o blog, mesmo sendo atrasada eu gosto de ler o que posta aqui.
    Beijos

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  16. Karen, obrigado pelo carinho. Fico contente com sua presença neste espaço estranho. Agradeço também o incentivo. Obrigado mais uma vez.

    Abraços!

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  17. A revolução não veio, mas já brota, dentro de ti.

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  18. Seja bem-vinda a literatura dissonante, Nicole. Obrigado pela visita e pelo carinho. É um prazer receber alguém tão inteligente por aqui. Seus blogs são maravilhosos. Parabéns!

    Obrigado mais uma vez.

    Abraços!

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