quinta-feira, 22 de abril de 2010

Conto - Acorde-me

Pablo Picasso (1881 - 1973)
Cabeça de uma mulher dormindo (detalhe) (1907)
Museu de Arte Moderna,
Nova Iorque

Foto por Tomás Fano


Lembro-me da última paisagem antes de dormir. Era uma vasta planície que circundava todo o horizonte. Na estreita linha entre céu e terra, o sol parecia derreter lentamente derramando mais e mais sua delgada luz alaranjada. No meu lado esquerdo um homem de aspecto taciturno olhava penetrante para frente, na direção que encontrava o banco do motorista do ônibus, onde nós estávamos.

O vento que entrava numa das janelas do lado oposto e o balançar insistente e monótono do veículo aumentava ainda mais minha sonolência. Não pude resistir à pressão das pálpebras. Dormi.

De repente despertei. Levantei-me e fui até a praia, que estava deserta. Fazia um lindo dia. O sol irradiava no seu maior esplendor, ao andar meus pés tocavam as ondas como numa sinfonia e afundavam levemente deixando um rastro na areia que depois se apagava.
Lá do outro lado, ele surgiu vigoroso, estava próximo da nossa mansão branca.

- Cléo! – chamou-me.

Levantei a mão respondendo. Ele veio ao meu encontro. Abracei-o fortemente contra o peito. Rezava tanto por este momento e aconteceu. Lua-de-mel com o homem da minha vida. Bem no paraíso.

Tudo havia transcorrido bem durante o dia. Quando a noite veio macia e doce, eu só desejava dormir. E rezava para ter um sono mais agradável do que tivera na aquela manhã. Plasmem! Eu acordara por causa de um pesadelo, no qual era uma simples funcionária de uma fábrica razoável que se deslocava todo dia, incansavelmente num ônibus de linha suburbana durante meia hora. Ganhando pouco mais que um salário mínimo.

Deitei-me levemente na cama. Nem mesmo vi meu esposo se deitar. Simplesmente apaguei-me.
Uma voz levantou mais alta. Dei um pulo de susto. Acordara. Mas não sabia onde me encontrava. Estava escuro e frio. Percebi que estava seminua sobre uma enorme cama. A luz da alcova se ascendeu e um homem apareceu rente à porta. Era baixo, gordo, olhar profundo, barba rala e pele morena. Olhou-me e disse:

- Cliente.

- O que? – Perguntei assustada

- Está esperando – disse calmamente

- Quem é você? O que estou fazendo neste lugar imundo? O que pretende fazer comigo? – indagava assustada.

Sua expressão foi um espanto só, seu cenho franziu confuso e perturbado.

- Você está bem Vênus?

- Quem é Vênus?! - gritei nervosa.

- Ora, você.

- Eu! Não! Você deve ter me confundido – disse ao homem gordo. Meu nome é Cléo.
Ele ficou mais espantado e confuso.

- Cléo? Ficou louca V.

- Não sou V! - gritei mais alto.

- Pare de brincadeira, pois você está me assustando - disse sério. O cliente está à espera.

- Que cliente? – indaguei mais irritada.

- Acorde meu bem! Em que sonho você está? Ora, que cliente? Sei lá, é somente mais um.

- Do que você está falando? Com quem pensa estar falando?

- Com a poderosa Vênus – respondeu ele prontamente. A melhor prostituta da Avenida 12, que de repente resolveu ficar maluca.

Ah! Havia entendido tudo. Era só mais um sonho. Logo acordaria dentro de um ônibus.


Alex Zigar

2 comentários:

  1. Nossa Alex que delicia de ler ....adoro contos ...e ler esse seu foi incrível....parabéns

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