segunda-feira, 26 de abril de 2010

Conto - O Assalto

Paul Gauguin (1848-1903)
De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? (1897)
Óleo sobre tela, 139.1 x 374.6 cm
Museu de Belas-Artes, Boston


Ela aproximou-se.

- O que é a morte? - indagou.

Ele olhou profundamente naqueles lindos olhinhos castanhos, que reluzia a luz crepuscular de mais um domingo. Sentiu-se incomodado com a pergunta. Logo ele, conhecido por seu jeito profético e filosófico de dizer as coisas. Todos o chamavam de pensador. Sabia dizer coisas, coisas que surpreendiam as pessoas. Mas, naquele instante, não conseguia encontrar uma resposta para aquela pergunta, aparentemente simples.

Era só responder qualquer coisa, pois a questão tinha sido formulada por uma menininha. Porém a questão não era saber responder a uma criança, e sim responder para ele mesmo. O que dizer? Ela esperava. Parecia angustiada. Ele se levantou, quis sair dali, daquele embaraço. Havia crianças na rua. Velhos conversavam sobre coisas antigas. Moças corriam para tomar o banho. Senhoras se arrumavam para a missa. Os pássaros retornavam para o ninho. A morte é a morte, ora. É morrer. É não existir. Nunca mais. Nunca mais! Essas palavras fizeram seu corpo estremecer. Olhava a sua volta. A vida continuava. Nunca mais. Uma angústia o dominou densamente. Pensava que nunca mais iria voltar a viver. Fazer as velhas coisas, velhos hábitos. Teve ódio daquela criança.

Entretanto, compreendeu que mais cedo ou mais tarde, ele seria assaltado num fim de domingo, que mais parece o fim de tudo, e não há melhor momento para se pensar na morte, pois tudo parece morrer.

Como ele demorou a responder, a menina foi brincar com as outras crianças, que estavam na rua. E ele, depois de um momento, enfiou as mãos nos bolsos da calça e saiu dali como se nada tivesse acontecido.


Alex Zigar


2 comentários:

  1. Oi Alex!

    Gostei desse conto...É sintético, simples, e ao mesmo tempo tem profundidade, sem se levar a sério demais (será que eu senti até um sarcasmo aí no fundo?). De alguma forma, ele quebra com a expectativa. A descrição do final de domingo é muito verdadeira. Às vezes parece que morre a expectativa, o ânimo, a esperança e tudo fica mais longe. Para mim, também é a hora da mesa desmanchada, dos restos de quitutes, das xícaras de café, dos rastros de gente, do afago, das fotos felizes, do restinho de dia manso e da preguiça satisfeita.

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  2. Olá Rosa, é um prazer ler seus comentários sempre certeiros. Você resumiu muito bem o conto. Conseguiu captar muito da essência dele. É impressionante sua capacidade de análise. Este conto surgiu-me verdadeiramente num crepúsculo dominical de inverno. Parecia que tudo estava morrendo. E partir de então questionei sobre a morte. Percebi o quanto é difícil aceitamos esta certeza. Como a sociedade a nega. E neste conto, eu refletido a consciência da finitude da nossa vida e o medo que a morte nos causa.

    Mais uma vez obrigado pela visita e pela observação consciente!

    Abraços

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