sexta-feira, 23 de abril de 2010

Poema - Trabalhadores da Terra

Jean-François Millet (1814 - 1875)
Angelus (1857 - 1859)
Museu de Orsay, Paris


Há homens sobre telhados envelhecidos
construindo uma latejante esperança
sob uma fina chuva de janeiro
e nas aldeias
as mulheres
operárias incansáveis
esperam
ansiosas o parto de outro dia

Há homens em campos extensos
cavando a terra lentamente
sem pão que os alimentem
a tua semente que não veio
porque o chão é de outrem

Há assassinos livres
e poetas presos
na alma dos homens caídos
e nas mulheres nuas
perdidas entre ruas
vazias de sonhos e desejos

Há homens nas feiras
lutando com laranjas e maças
extraindo suor da face e dos braços
para fazer do trigo o pão de amanhã

Há homens consumidos
desgastados pelas engrenagens
dos imensos motores que rodam sem parar
em fábricas estrangeiras
em subúrbios esquecidos e desabitados

Há homens em túneis
sob os montes ou dentro das matas
ou nas cidades
abarrotadas de lixos e barracos
entre missas e submissas
matando e se matando
para matar a fome dos filhos

Sobretudo
há homens e mulheres
em quartos frios ou alheios
dentro de plataformas ou em prédios
cruzando esquinas ou encruzilhadas
rezando para o que ainda resta
a fé
os milagres
os santos


Alex Zigar



6 comentários:

  1. É incrível a simplicidade e realismo que você colocou suas palavras Alex ...
    Parabéns pelo poema
    Excelente...

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  2. Olá Daise, muito obrigado pelas palavras. É ótimo tê-la aqui também no blog.Fique a vontade para comentar.

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  3. Oi Alex,
    Eu não sei dar uma opinião consistente, porque meus conhecimentos literários são limitados, e em frente a uma página em branco fico tão perdida quanto qualquer um...Mas seu poema tem uma convicta indignação que, mesmo podendo ser considerada ingênua por alguns, é raríssima hoje, em que tendemos para a impotência, ceticismo e introspecção. Não abra mão desse sentimento inconformado. Ele pode ser uma tremenda força criadora.

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  4. Rosa, fique a vontade para fazer sugestões e críticas. E seja bem-vinda a este humilde espaço, onde exponho minhas palavras destoantes... Você fez uma observação interessante sobre o poema. É um poema que está desvinculado de qualquer sentimento romântico. O eu-lírico denuncia e observa os movimentos de certos homens e mulheres fadados ao esquecimento social, numa luta mortal pela sobrevivência diária, com sonhos e desejos. Há apenas o desespero e uma identificação com os trabalhadores... E obrigado pelo incentivo e por fazer parte do blog.

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  5. Oi Alex,

    Eu achei curioso no seu comentário anterior você dizer que o poema está desvinculado de qualquer sentimento romântico, pois para mim esse sentimento indignado, no qual ele está embebido, essa identificação com os trabalhadores, o protesto incendiado, está fortemente vinculado a um caráter romântico (que inclusive me remete às pinturas de Delacroix)... Você acha que essa concepção é válida?
    Beijo!

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  6. Olá Rosa, você é uma leitora muito atenta. Mas não tenho o caráter de um Victor Hugo nem de um Castro Alves. Ah! Como os aprecio! E Delacroix nem se fala, minha maior identificação com ele talvez seja o mesmo gosto da arte em geral. Ele mergulhava muito na literatura para pincelar suas obras, acreditava que todas as artes estavam ligadas. Assim como acredito. Sempre visito os pintores e os músicos para me inspirar. Geralmente o que escrevo faz parte de mim, do meu convivo diário com os trabalhadores e da pobreza do nosso povo. Pablo Neruda também escreveu versos inflamados contra a opressão que os trabalhadores chilenos sofriam. Era romântico... Comunista, mas talvez apenas quiser expressar aquela agonia do seu povo. Sei o quando é difícil desvincular rótulos e ideologias, talvez seja romântico mesmo, apenas no sentimento de transformar o mundo em algo melhor, pois detesto a burguesia e a religião. Sou um selvagem e um pessimista, não poderia ser diferente, afinal amo Flaubert. E termino tão confuso quando comecei. Pois não conseguiria me definir, por mais que tentasse.

    Abraços

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